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Black & gray

Porque a vida não é só "preto e branco". O cinzento também existe. E é a possibilidade de podermos optar pelo cinzento, em tantas situações, que torna a nossa vivencia tão rica.

Black & gray

Porque a vida não é só "preto e branco". O cinzento também existe. E é a possibilidade de podermos optar pelo cinzento, em tantas situações, que torna a nossa vivencia tão rica.

19.Fev.18

A minha vila de outrora

Moro numa vila citadina, urbana com toda a confusão e agitação inerentes. Tem crescido a olhos vistos, graças à industria e serviços que têm proliferado na zona industrial.

Nunca foi uma vila bonita mas perdeu o pouco encanto de antigamente. Perderam-se as relações entre vizinhos, as lojas de rua, alguns espaços verdes e tudo para e em consequência do crescimento económico.

Os hipermercados vieram substituir a mercearia onde comprávamos gomas e pastilhas gorila aos cubos, e o supermercado do sr. Domingues que vendia chocolate Tody e bolachas baunilha a peso.

Vieram também tirar clientela (assim como as pastelarias) à padaria do Sr. Elias onde, durante muitos anos, a minha sogra comprava pão fresco de madrugada para a merenda do meu sogro, que saía cedo para mais uma jornada como motorista, ou onde a minha mãe comprava a famosa arrofada de côco ou o Capri Sun que levava para as viagens de estudo.

Acabaram também com o Leiteiro que trazia os iogurtes Vigor e o leite do dia (que a minha mãe fervia todas as noites e eu me deliciava com aquela espuma que subia, bem quentinha), "matou" também o "Pitrolino" que, na sua pequena carrinha, trazia o que podiamos chamar hoje dum "Continente móvel", e chegava assim aos pontos mais dificeis da freguesia. Condenaram também a drogaria do sr. Z., um espaço que vendia de tudo (desde o mais pequeno parafuso até ao maior alguidar que possam imaginar).

O centro comercial outlet acabou com o pronto a vestir da DA e com a sapataria do sr. C., que conhecia já de cor os tamanhos que os seus fieis clientes calçavam.

Os espaços de beleza e as novas barbearias (que têm nascido que nem cogumelos) acabaram com o barbeiro T. (local de encontro dos senhores da terra e onde punham a leitura em dia enquanto esperavam por uma barba e cabelo). Fizeram desparecer as cabeleireiras de casa (que exerciam numa assoalhada anexa com fotos de penteados da moda na janela) procuradas pelas senhoras das quintas para uma "mise" ou permanente e tambem manicure (tal como a minha tia que me utilizou várias vezes como cobaia para testar as novas tendências).

As quintas vão sendo vendidas em parcelas para construção de urbanizações ou para novos hipermercados.

A sala de sócios do clube da terra passou a ser um ATL (fruto da necessidade de ter os filhos ocupados enquanto os pais trabalham; as mães domésticas de antigamente já são poucas). Perdeu-se o único espaço de convívio de miúdos e graúdos onde podiam confraternizar, jogar snooker ou bilhar, tenis de mesa, cartas, etc e onde as atletas da ginástica galavam os jogadores de futebol do clube, enquanto esperavam pela hora do treino.

As matinés também já foram local de encontro quinzenal dos jovens, onde dançavamos os temas da moda e foram culpadas por muitos namoros (o meu começou lá...) e até casamentos.

Deixámos de conhecer os nossos vizinhos: de a quem pedir uma caneca de vinho branco para pôr no estufado, um pacote de açúcar para servirmos um bolo a umas visitas inesperadas, ou com quem trocar o jornal desportivo (como fazia o meu avô com o vizinho que morava no fundo da rua). Deixámos de saber o nome do merceeiro ou do sr. do restaurante onde a minha mãe comprava sopa (numa tupperware) para o jantar.

Estas e tantas outras coisas foram-se perdendo. Hoje somos uma vila descaracterizada, multicultural, com poucas pessoas nascidas e criadas na terra.

Bons tempos que já não voltam e uma realidade que, infelizmente, o meu filho já não conheceu.

 

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